Dias Perfeitos de Raphael Montes

Dias Perfeitos é um livro escrito por um dos meus autores favoritos (com certeza o brasileiro favorito) e eu já sabia que ia gostar muito dele. Mas nada me preparou para o que foi ler Dias Perfeitos.  

Publicado pela editora Companhia das Letras, em 2014, Dias Perfeitos é o segundo livro do escritor brasileiro Raphael Montes. 

Téo é estudante de medicina e um garoto muito solitário. Passa seus dias cuidando de sua mãe paraplégica e nas aulas de anatomia. Após conhecer Clarice em uma festa, Téo fica fascinado pela garota. Começa então a se aproximar de Clarice de forma doentia e acaba tomando uma atitude dramática. 

Passando por lugares do Rio de Janeiro, como um chalé em Teresópolis e uma praia deserta em Ilha Grande. A trama vai se desenvolvendo entre os dois de forma inusitada. 

Eu não esperava que já no início do livro Téo ia acabar sequestrando a Clarice, foi um momento de choque total por minha parte. Mesmo lendo a sinopse e sabendo que ia acontecer, Raphael Montes me pegou de surpresa por ser tão cedo no livro. 

O Téo é uma figura muito peculiar, até como ele mesmo diz. Não tem amigos, e a única pessoa com quem se relaciona é sua própria mãe. As atrocidades que Téo faz com Clarice são em alguns momentos de embrulhar o estômago. E ele justifica tais ações como sendo feitas por amor, mas são apenas doentias. 

Sentia-se um monstro. Não gostava de ninguém, não nutria nenhum afeto para sentir saudades: simplesmente vivia

Téo também tem uma relação de “amizade” com um cadáver das aulas de anatomia, que ele chama de Gertrudes. Para ele Gertrudes é a pessoa ideal, não o contradiz, não fala, não discute e está lá simplesmente para que ele possa usá-la para aprender. Isso nos mostra o que realmente Téo considera das outras pessoas e o que elas significam para ele. 

A sala de anatomia era seu espaço. As macas pelos cantos, os cadáveres dissecados, os membros e os órgãos em potes davam a ele uma sensação de liberdade que não encontrava em nenhum outro lugar. Gostava do cheiro de formol, das ferramentas nas mãos enluvadas, de ter Gertrudes sobre a mesa

A mãe de Téo, por ser cadeirante, necessita muito do filho para fazer diversas coisas. Téo acredita que a mãe é fraca e a vê com bastante desdém. 

Havia também algo de surreal: aquelas mesmas pessoas passavam a vida na esbórnia, chafurdando prazeres mundanos, e ao primeiro sinal de problemas apelavam por uma redenção de que não eram merecedoras

Clarice é uma garota de espírito livre e de opinião forte. É estudante e sonha se tornar roteirista de cinema. Ela está escrevendo um roteiro de um filme que se chama “Dias Perfeitos” e para isso vai viajar para buscar inspiração.  

O fato de Téo não levantar nenhuma suspeita durante todo o livro é um pouco fora do normal. Tantas pessoas poderiam ter desconfiado que algo estava errado, mas ninguém faz ou fala nada. A mãe de Clarice, que mal conheceu Téo direito acha que ele é um santo e que está tudo bem com a filha. Mesmo que Clarisse nunca falou com a mãe diretamente durante todo o tempo que ficou nas mãos de Téo. 

Por outro lado, isso também mostra o quão bom Téo é em manipular as pessoas. Além de mentir muito bem ele, engana os outros e até a si mesmo.  

Clarice não podia tê-lo chamado de monstro. Não tinha esse direito. Ele não era um monstro. E precisava desesperadamente que ela acreditasse nisso

Téo está convencido de que ama Clarisse e que ela, em algum momento, também o amará. Mas Clarisse nutre somente ódio por Téo e por todas as situações que ela a fez passar. Podemos ver em várias partes do livro que mesmo que Clarisse o trate bem e converse com ele (dizendo as vezes até que o ama) ela somente está tentando encontrar uma maneira de escapar do cativeiro que ele a mantém. 

Em alguns momentos de embate entre os dois podemos ver um lampejo de lucidez em Téo, que questiona se realmente ama Clarisse. Mas esses lampejos são passageiros e sempre resultam em Téo admitindo para si mesmo que o que faz a ela é porque a ama. 

A sedução vacilante, as conversas superficiais, os ataques de fúria seguidos de pedidos de desculpas, Téo havia se acostumado a tudo aquilo. Em certo ponto, havia se perguntado se continuava a amá-la. Talvez ela estivesse certa, talvez tivesse sido apenas paixão – um fogo passageiro. O que ele entendia de amor para ter certeza?

O livro traz uma semelhança com o romance de John Fowles, O Colecionador. Toda a questão entre os dois personagens serem pessoas com dificuldades sociais e reclusos que se apaixonam perdidamente por uma moça que parece ser livre das amarras da sociedade. O sequestro da moça para trazer um pouco dessa leveza para a própria vida. Mantê-la em cativeiro com a esperança de que algum dia ela os veja de maneira diferente e possa apaixonar-se por eles 

O final do livro surpreende por ser pouco convencional. Não é um final que esperamos ou mesmo que cogitamos ser possível. A quebra de expectativa é tão impremeditável e bem bolada. Apesar de não ser um final que muitos querem ainda assim é um ótimo final, e por isso eu gostei tanto dele. 

Nota:

Título: Dias Perfeitos
Autor: Raphael Montes
Editora: Companhia das Letras
Ano de Publicação: 2014
Gênero: Suspense
N° de Páginas: 280

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